Não sou poeta. Não reconheço
em mim a mágica ferramenta do materializar de forma desnuda tudo o que
escrevem. A capacidade despida de deixar que lhe leiam a alma. Não, de certo
que não o sou. Não permitiria que me invadissem desconhecidos, conhecidos e até
familiares, os compartimentos mais resguardados que há em mim. Porque tudo
em mim é demasiado apertado e escuro. E os cantos pelos quais se vêem luzes e arco-íris,
é o mesmo que já conhecem. Por isso mesmo, não, não sou poeta. Como poderia eu
permitir que me avaliasse por dentro quem desconheço por completo? Não, não o poderia ser. Guardo em mim demasiadas caixas ruídas por
memórias distorcidas, das quais, já não sei distinguir a realidade. Caixas,
caixinhas, caixotes e caixões. Tudo o que sou. Tudo o que não quero que saibam
que sou. Não quero que encontrem em mim minhas fraquezas, nem tudo o que dói.
Quero apenas que saibam aquilo que lhes dou, e já é mais que suficiente.

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