sexta-feira, 15 de maio de 2015

Não sou

Não sou poeta. Não reconheço em mim a mágica ferramenta do materializar de forma desnuda tudo o que escrevem. A capacidade despida de deixar que lhe leiam a alma. Não, de certo que não o sou. Não permitiria que me invadissem desconhecidos, conhecidos e até familiares, os compartimentos mais resguardados que há em mim. Porque tudo em mim é demasiado apertado e escuro. E os cantos pelos quais se vêem luzes e arco-íris, é o mesmo que já conhecem. Por isso mesmo, não, não sou poeta. Como poderia eu permitir que me avaliasse por dentro quem desconheço por completo? Não, não o poderia ser. Guardo em mim demasiadas caixas ruídas por memórias distorcidas, das quais, já não sei distinguir a realidade. Caixas, caixinhas, caixotes e caixões. Tudo o que sou. Tudo o que não quero que saibam que sou. Não quero que encontrem em mim minhas fraquezas, nem tudo o que dói. Quero apenas que saibam aquilo que lhes dou, e já é mais que suficiente. 


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